Ter ou não ter filhos: eis a questão

Se ter filhos fosse uma decisão racional, não os teríamos. Este mundo é um lugar hostil à criação de novos seres humanos. O Brasil, por exemplo, enfrenta crises de âmbito econômico, moral e político, além do surto de zika e microcelafia, inflação, desemprego, educação básica e saúde pública de má qualidade. Ainda tem a crise migratória na europa, o estado islâmico, a bolha imobiliária norteamericana, ebola, testes nucleares na Coréia do Norte… Se optamos por ter filhos deliberadamente, o fazemos por egolatria. Achamos que, de alguma forma, as futuras gerações MERECEM ter os nossos genes, além de medirmos nosso sucesso pelo sucesso da nossa prole. Ser mãe e pai envolve MUITA vaidade também. Isso pode parecer duro e até um pouco estranho, já que manifestei o desejo de ter mais um filho, mas desde que me tornei mãe descobri que ESSA é a verdade.

A nossa sociedade cobra de nós uma prole que, nem sempre, desejamos ter. Impõe-se um modelo de família tradicional, de ciclo de vida tradicional… e todos que se encontram fora dela sofrem julgamentos e preconceito. Pouco se importam com a felicidade daquela família (principalmente a da mãe, que é a que mais trabalha), desde que pareçam felizes e sigam o script social do comercial de margarina. A moral religiosa também está diretamente ligada a isso: quando vemos um congresso usando a religião cristã (que é uma escolha individual) como justificativa para se criar (ou não) LEIS (que abrangem TO-DOS os brasileiros de diversas religiões) acerca do aborto, vemos o quanto o indivíduo é pressionado pelo coletivo a ir contra as suas próprias decisões.

E aí, por mais pressão que suportemos, usarei a máxima feminista do “Não sou obrigada”. Ninguém é, na verdade. Ninguém é obrigado a se reproduzir, ninguém é obrigado a deixar legado algum a este mundo, ninguém é obrigado a assumir compromissos optativos porque é bonitinho aos olhos dos outros. Então, para ajudar nessa reflexão, preparei um checklist de perguntas para se fazer antes de ter um filho.

1) Está disposta(o) a abrir mão do seu corpo?
Essa é para as mulheres, principalmente. Gravidez é punk, hardcore, heavy metal, doom, industrial… não é molezinha e nem bonitinha como aparece nas capas de revistas. Enjôos, dores nas costas, prisão de ventre, estrias, seios doloridos, desconforto para dormir, contrações, parto normal ou cesárea… E depois que a gravidez passa, tem o puerpério, a amamentação, o sono interrompido de 3 em 3 horas. O CANSAÇO! Esse nunca passa…

O cansaço é a única coisa que os pais podem sentir caso queiram ser minimamente participativos, mas não se compara ao cansaço da mãe.

2) Está disposta(o) a abrir mão do seu tempo?
Mais grave do que o esgotamento físico, é o tempo. Você poderia estar se dedicando exclusivamente aos seus projetos e entretenimentos pessoais, mas está se dedicando ao pequeno ser humano que acabou de nascer. O tempo não é empregado apenas na primeira infância, É NA VIDA TODA! Filhos sempre demandam tempo da gente, seja para brincar, estudar, conversar, levar bronca, etc.

3) Está disposta(o) a rever a sua vida social?
Você poderia estar na academia, mas está no pediatra. Você poderia estar num mochilão na europa, mas está no parque da Mônica. Você poderia estar naqueeeele restaurante japa que tanto adora, mas está no McDonalds porque o japa não tolera a presença de crianças. Você poderia estar naqueeeeela balada, mas está numa festinha de aniversário de criança do coleguinha de creche do seu filho. Uma vez mãe e pai, sua vida social nunca mais será a mesma. É claro que nos readaptamos e passamos a ter prazer nesses momentos com os filhos, mas esses prazeres individuais serão cada vez mais raros.

4) Está disposta(o) a rever sua amizades?
Sim, porque aquela(e) amiga(o) baladeira(o) que toma todas e passa o rodo em geral no tinder não gosta dos tipos de programas que você vai passar a ter. Não precisa declarar ódio ou cortar relações totalmente, só seja delicada ao recusar os convites. Com o tempo, eles pararão de chegar e você vai fazer novas amizades com as mães da antesala do pediatra ou as dos amigos dos seus filhos.

5) Está disposta(o) a abrir mão do seu dinheiro?
Fraldas, alimentação, roupas, móveis, remédios, plano de saúde, brinquedos, creche, escola, transporte escolar, material escolar, entretenimento… custam muito caro! Ou você ganha um aumento, ou você arranja outro trabalho

6) Está disposta(o) a refazer/adiar/cancelar projetos pessoais?
Isso está diretamente ligado à questão do tempo. Se você pretende fazer aquela pós-graguação, a reforma da casa, comprar um automóvel ou colocar silicone, pense se seu tempo e dinheiro empregados nisso não farão falta às necessidades da criança.

Se todas as respostas forem positivas, parabéns, você está preparada(o) para ter um filho. Se forem negativas, não se sinta um lixo por isso, simplesmente não tenha filhos: o mundo agradece a sua honestidade! Muito melhor não ter criança do que ter e ela ser mal cuidada, mal tratada e mal amada. O mundo já tem crianças abandonadas demais, não colabore com o aumento desse número.

Você deve estar pensando que eu odeio ser mãe, que não mereço ter filhos ou que este texto é uma apologia ao (mau) egoísmo.

Errou feio!

Escrevi sobre a liberdade de escolha, sobre a hipocrisia da sociedade e suas imposições morais e sobre a maternidade como ela realmente é (e que poderia ser bem mais fácil se todos colaborassem). Se o seu olhar está carregado de preconceitos, faça o favor de não se reproduzir (mesmo que suas respostas tenham sido positivas mais acima). O mundo já tem hipócritas o suficiente, não precisamos de mais!

No mais, usem camisinha. Sempre!

Beijos da Mãe

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