And the Oscar goes to…

*Na foto, Mark Rylance, vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante no filme “Ponte dos espiões”.

Ontem foi exibida a cerimônia de entrega do Oscar, onde os “melhores” (entre aspas, porque nem todos os melhores foram contemplados, na minha opinião) filmes, atrizes, atores, roteiros, etc, foram prestigiados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA.

Uma das categorias é a de melhor atriz/ator coadjuvante. Segundo a Wikipédia:

“Nas artes cênicas, um ator/atriz coadjuvante ou secundário é uma categoria de ator em uma peça teatral, filme ou qualquer outra manifestação dessas artes que coadjuva, dá suporte, contracena com os atores responsáveis por desenvolver a trama principal da obra e, com sua interferência, auxilia os mesmos a transmitir suas mensagens e ideias; é um ator/atriz que interpreta papel secundário,também é um ator/atriz que acarreta quase todas as fases de maior cenas de espectactividade.”

Enquanto assistia à cerimônia, pensei em como a situação de ex-casal coloca pais em condição de coadjuvantes. Muitos são cruelmente impedidos por suas ex companheiras de participar da vida do Filho, muitos são subjugados pelas Mães e considerados incapazes de cuidar de seus Filhos sozinhos, maaaaaaas, na esmagadora maioria dos casos, pais separados se encostam no “instinto materno” para justificar seu não-protagonismo na vida da criança.

Lembrei de uma história verídica, entre uma Sra Mãe e um Sr Pai.

A Sra Mãe estava grávida e procurava um bom lugar para parir. Ela tinha um plano de saúde meia boca que só cobria a parte ambulatorial e exames e, caso precisasse ser internada ou tivesse uma emergência, ela que pagasse ou fosse à rede pública. Pesquisou, sozinha, entre os hospitais particulares de sua cidade e viu que o preço de um parto estava muito além do que poderia pagar. Partiu pra rede pública mesmo: pesquisou, foi até alguns hospitais, fez telefonemas, leu depoimentos na internet, procurou referências negativas e positivas em noticiários, fez até uma rota de 5 hospitais no google maps, caso fosse recusada por alguns deles. Por sorte, ela conseguiu ser atendida logo no primeiro da lista. A criança nasceu com problemas, precisou ficar internada mas teve um atendimento de excelência no hospital público que a Sra Mãe escolheu.
Tomada de iniciativa e decisão do Sr Pai: nula.

Sra Mãe queria voltar ao mercado de trabalho e conversou com o Sr Pai sobre pesquisar creches ou escolas onde pudessem matricular a criança. A princípio, o Sr Pai debochou, disse que era muito cedo pra ela se preocupar com isso, mesmo assim a Sra Mãe, sozinha, começou a pesquisar locais por conta própria. À medida que o ano transcorria, ela continuava falando ao Sr Pai a importância de pesquisarem instituições. Sr Pai concordava, mas nada fazia. Chegou no fim do ano, eles conversaram por GTalk, ele se sensibilizou, ressaltou a importância da participação dele na escolha da escola do Filho, pediu muitas desculpas por ter sido ausente e prometeu ser mais participativo. Depois disso, a criança ficou em casa por um ano e meio, totalmente sob os cuidados da Sra Mãe, até que ela decidiu que o Filho precisava começar a estudar e o matriculou numa escolinha perto de casa. Não é uma escola top de linha, mas é a que se pode pagar. A Sra Avó-Paterna colabora mensalmente com metade do valor da mensalidade.
Tomada de iniciativa e decisão do Sr Pai: nula.

O Filho faz um bom acompanhamento pediátrico ambulatorial no hospital público onde nasceu mas está desprotegido em casos de emergência. Depois de uma experiência ruim numa UPA, todos (= família materna + família paterna) decidem que era hora da criança ter um plano de saúde. A Sra Mãe e a Sra Avó, em conjunto, se debruçaram sobre computador e telefone pesquisando preços e cobertura dos planos de saúde por semanas a fio. Até que… PLIM! Num “passe de mágica”, surgiu um cartão de plano de saúde na mochilinha do Filho quando ele foi passar o fim de semana com o Sr Pai.
Tomada de iniciativa e decisão do Sr Pai: nula.

Devido aos problemas que o Filho teve ao nascer, os médicos deram um encaminhamento por escrito à APAE da cidade para que a criança tivesse estímulo constante. Sr Pai mora no mesmo bairro da APAE e a Sra Mãe pediu a gentileza dele caminhar alguns quarteirões e conversar com a assistente social. Sr Pai não foi. Ele preferiu conversar com amigas pelo face e se escorar na resposta negativa que elas deram à possibilidade do Filho ser tratado na APAE. Felizmente, Sra Mãe conseguiu o mesmo tratamento através do plano de saúde.
Tomada de iniciativa e decisão do Sr Pai: nula.

A criança está crescendo, que fofo! O Filho está cada vez mais desenvolvido, comunicativo, inteligente. Sr Pai e Sra Mãe super orgulhosos do Filhão! Durante longa conversa no whatsapp, Sr Pai explica o quão importante é que seu Filho pratique um esporte, que problemas de relacionamento, que a descarga de energia do Filho, temperamento, disciplina, podem ser aprimorados com a prática esportiva. Só no papo, né? Afinal, levantar a bunda da cadeira, pesquisar um esporte, pesquisar um local, ir até o local, ver preços, conversar com professores dá muuuiiitooo trabalho. Ele tá ocupado demais com trabalho + namorada + banda de rock pra perder tempo com essas coisas. A Sra Mãe vai lá e matricula a criança na aula de natação.
Tomada de iniciativa e decisão do Sr Pai: nula.

Essas são as histórias de UM ex-casal, mas eu aposto que existem muitas outras por aí. Qualquer semelhança NÃO É mera coincidência. Estar separado de sua ex companheira não exime o pai da tomada de iniciativa e decisões. Se o pai já não participa do cotidiano da criança, o que custa ser atuante nas grandes decisões da vida dela? Não é favor, é OBRIGAÇÃO!

E sobre o instinto materno, tenho uma revelação bombástica a fazer: ele não é um item de série da mulher, é uma construção, pode perfeitamente ser aprendido, tcharaaaaam! O Blog Sou Pai Solteiro explicou isso muito bem:

Acredito que nós pais podemos ser tão bons quanto qualquer mãe, basta querermos e nos dedicarmos.
A falta de uma criação para ter cuidados com crianças, não nos impede de aprender e fazer.

Um homem que aceita mudar toda sua vida por um filho, assim como tantas mulheres, é sinal claro que paternidade se constrói e se aprende, assim como tantas maternidades por aí.

O Blog Para Beatriz também:

O pai do seu filho – morando ou não com você – é completamente capaz de cuidar do seu filho TANTO QUANTO VOCÊ. As únicas…

Publicado por Para Beatriz em Terça, 23 de fevereiro de 2016

Pensando melhor, diante de tantas nulidades, alguns pais merecem ser rebaixados da categoria de coadjuvantes a figurantes, e figurantes não ganham Oscar!

Ludov – Ele se engana bem

Sofreu, penou, chorou
E todo mundo viu
E olhou pra além de si
Uma vez na vida
Mas foi só até achar alguém
Que levasse a culpa
Por seu dom
Natural
De enganar
E ele se engana bem!

Quem vê assim até
Pensa que ele tá legal
Mas é tão só
Criou uma fantasia pra usar
De tanto usar já crê
Nessa aparência de feliz
Ele vai
Se enganar
E ele se engana bem!

Ele se engana bem!
(Diz que não presta atenção)
Ele se engana bem!
(Tanto se esforça à exaustão)
Ele se engana bem!
(Retorna sempre ao refrão)
Ele se engana bem!
(Dentro do peito um furação)
Ele se engana bem!
(E faz das tripas coração)
Ele se engana bem!
(Às vezes sim, às vezes não)
Ele se engana bem!
Ele se engana bem!
Ele se engana bem!

Beijos da Mãe

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