Maternagem pitaqueira

João Pedro nasceu prematuro com quase 32 semanas e ficou internado por 40 dias na Unidade Intermediária do Hospital Federal de Bonsucesso. Durante os 40 dias da internação, eu estive ao lado do meu Filho: fiquei no alojamento de mães. Dividia o quarto e o banheiro com mais oito mulheres que estavam na mesma situação que eu: tinham Filhos com problemas de saúde e estavam internados na UI ou na UTI. Cada cama daquele quarto continha uma história diferente…

Assim que eu cheguei no alojamento, perguntei a uma Mãe que já estava lá há 6 meses (sim, a Filha dela nasceu prematura extrema e estava internada há 6 meses, desde que nasceu) se ela amamentava a Filha. Ela respondeu que não. Eu me calei quando a ouvi dizer isso mas, internamente, eu julguei aquela mulher. Pensei “Nossa, que mãe desnaturada. Está aqui há todo esse tempo fazendo o quê?”

Ainda bem que eu me calei…

A vida foi muito árdua com João e comigo durante aqueles 40 dias. Foram 40 dias de sustos e aprendizado, dormindo numa cama que não era a minha, comendo a comida “deliciosa” que o hospital oferecia aos acompanhantes, não havia privacidade, não havia vaidade, não havia conforto, não havia a família paparicando em volta…

E então, o que eu abominava aconteceu: meu leite secou! Massagens, canjica, bombinha, água de coco, nada… meu leite secava… eu ordenhei o quanto pude, dei o leite que consegui para João, bem menos do que ele precisava…

Eu pedi perdão àquela mulher internamente…

Amamentar não é só colocar o peito pra fora e por na boca da criança. A qualidade e o volume do leite dependem MUITO do ambiente em que a Mãe está inserida. Situações de estresse, má alimentação, poucas horas de sono, depressão… tudo colabora para o leite secar. Só ali entendi o porque de todas as Mães do alojamento não amamentarem: nosso sofrimento nos secava por dentro.

E mesmo depois da alta do João, já em casa, tentei ordenhar com uma bomba elétrica e consegui tirar apenas 10ml de leite… Como eu me culpei, me depreciei, chorei… Eu queria amamentar e não conseguia… que merda de ser humano era eu?

João se alimentou de fórmula a partir do segundo mês de vida. Tentei dar o “melhor leite” dentro das minhas possibilidades e mais todo o cuidado que ele precisava. João Pedro tem 3 anos e esbanja saúde, ainda bem!

Escrevi tudo isso porque esse bafafá de que “amamentação é coisa de pobre” é chato e improdutivo. Li por aí também um contraponto de que as mães mais pobres trabalham muito, delegam o cuidado das crianças a terceiros e tem menos tempo de amamentar que as mais ricas. Porém, fórmula não é neeeeem um pouco baratinha, a Mãe pobre teria que trabalhar o dobro caso ela quisesse dar uma fórmula de qualidade. Círculo vicioso.

Mais importante do que cutucar Mães pobres/ricas/pretas/brancas é saber se a criança está sendo alimentada adequadamente. A neonatologista do meu Filho me contou um caso de uma mãe que baseava a dieta do filho prematuro em macarrão com frango. O garoto ganhou muito peso, mas a qualidade do alimento era péssima; resultado: altas taxas de colesterol e triglicerídeos para uma criança de 4 MESES!!!!

Fórmula ou peito, o ideal é que as crianças sejam alimentadas direito pois problemas alimentares afetarão SIM o desenvolvimento futuro da criança. Cuidem bem do que seus Filhos comem, é a melhor dica que posso dar. Tudo que não consegui amamentando, direcionei para a boa alimentação que ofereço ao meu Filho hoje.

Este post não é uma apologia à formula, é um tira-culpa das costas das Mães que não conseguiram amamentar, inclusive eu. Maternar não é fácil, solo então… mais difícil ainda… todo julgamento e escárnio são desnecessários, deixem as Mães em paz, só isso!

No mais, prefiro acreditar no que a Fernanda Gentil disse: “o amor que bate no peito, bate também na mamadeira”.

Beijos da Mãe.

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