Relato do Parto de Anita Crix

Era dezembro quando descobrimos a gestação. Assim que soube, fui atrás de toda informação que pude. Freqüentei um grupo de apoio (Ishtar)… Conheci minha doula-anja… Escolhi a maternidade… Os meses passaram e, apesar de todo o cansaço, não estava ansiosa para que terminasse. Estava ansiosa sim para conhecer meu bebê e dormir de bruços! Coisa que aliás, ainda não consegui fazer.

Esperava-se que Oliver nascesse por volta do dia 14 de agosto (data prevista do parto). Seis dias depois, e nada. Pausa! Que arrependimento de ter falado a verdade toda vez que me perguntavam com quantas semanas eu estava. As pessoas são ansiosas, e nem sempre tem as mesmas informações que você, e logo ficam preocupadas. Então, se você quer ter paz nas suas ultimas semanas, sem ter que lidar com a ansiedade dos outros, além da sua, minta suas semanas gestacionais. Sério!

Na quinta-feira, dia 20, comecei a sentir umas contrações, muito parecidas com as de ensaio… Mas essas não iam embora. Me acompanharam por todo o dia. Chama a Paula (minha doula anja fofa) no whatsapp!

– O que tá rolando?

– São pródromos! É… Acho que a brincadeira está para começar!

Opa! Então deixa eu me preparar! Fui fazer a unha, raspar as pernas (e outras partes), dar uma massagem no cabelo durante o banho…

Chegou sexta e eu tinha consulta com a “G.O. fofinha do plano”. Diante do relato de contrações indolores, ela resolveu me dar um toque. E eu, besta, deixei. ÓÓÓBVIO que não tinha dilatação, né! Dã! E isso (provavelmente) resultou na saída do tampão à noitinha. Chama a Paula no whatsapp!

– Opa! Oliver vem ai!! =D

Foi aí, nesse momento, que eu cometi outro grande erro. Avisei à minha família que o parto estava perto. Cara…. Que merda que eu fiz. Meu marido quase me “estorna” pra casa da minha mãe. Na minha santa ingenuidade, depois que o tampão saiu, não demoraria muito para as coisas começarem a pegar pesado. Que nada.

Sábado à tarde, minha madrinha me ligou e eu estava no melhor do soninho da tarde, após almoçar uma deliciosa feijoada – meu ultimo desejo de grávida. Como não atendi o telefone, ela se pirulitou para o hospital!! Já estava voltando pra lá à noitinha quando retornei a ligação!! Ahh… a ansiedade alheia….

E dá-lhe acupuntura, massagens, os “3 hots”, caminhada no shopping… Tudo para ajudar a engatar. E nada.

Na terça-feira, após 5 dias de pródromos – e muitos pedidos para que eu fosse para o hospital, que eu agendasse uma cesárea, que eu pelo menos fosse fazer uma ultra – por volta das 10 horas da manhã vieram as tão esperadas contrações doloridas e ritmadas. Agora é pra valer!! Chama a Paula no whatsapp!

– Marca as contrações! Ta de quanto em quanto tempo? Está longa? Vai pro chuveiro que alivia!

“Vou tomar um Buscopan!” Meu útero riu e disse “é sério isso? Você realmente acredita que isso vai ajudar? hahahaha Sabe de nada, inocente!”

E o dia foi passando….

Combinamos com a Paula que esperaríamos E haja banhos quentes, massagens da cunhada nas costas, gemidos, e as contrações ainda curtinhas, com menos de 1 minuto…. Lá pras 19h, pelo amor de Deus, vamos pro hospital. Paula nos encontrou lá. Já cheguei chegando, furando fila de geral, na cadeira de rodas que o taxista correu pra pegar pra mim! E eu só pensava na minha doula… Bateu um medo dela demorar a chegar…

– Tá com 8 de dilatação! Sobe direto com ela!

Aí minha doula chegou! Quase que cronometrado! Pronto! Não falta nada.

Chegando na sala de parto, tentei deitar na maca, não rolou. Avistei a bola! Linda, azul, no canto da sala. – Andrééé!!! Pega a bola! Pega a bola! Não rolou.

– Paula, monta a banheira! Monta a banheira!

Ela montou, num banheiro sem luz. Ai, que bom que não tinha luz! Paula tirou borboletas e corações iluminados (aquelas luminárias de tomada para quarto de criança) para quebrar a penumbra do banheiro. André ligou o computador e botou pra rolar minha playlist “para parir”. Eu tirava um cochilo entre uma contração e outra. Na hora da dor, Paula sempre vinha com um óleo, que ficava quentinho, nas minhas costas. Eu nem vi a bolsa estourar! Estava em outro planeta. Ou melhor, na “partolândia”. E aí veio o expulsivo.

Pausa! Vamos falar de cocô! Ahan! Isso mesmo! Cocô! Eu estava feliz, lá às 10 da manhã quando as contrações vieram, por me lembrar que tinha conseguido fazer o nº 2 logo cedo, então aquilo não seria um problema durante o parto. hahaha! Ledo engano. De vez em quando a Paula e o André se debruçavam sobre a banheira inflável, com um copinho descartável, e “pescavam” uma bolinha de cocô, que saía sem eu perceber. Pelo menos estava escuro…

De vez em quando também aparecia uma mulher de roupa verde e Crocs colorido no pé, e me pedia permissão para ouvir meu bebê. Ouvia e saía do banheiro. Eu ficava me perguntando se ela era enfermeira, GO, pediatra, ou um fantasma. Só sei que ficamos só nós três – minha doula, meu marido e eu – naquele banheiro, sozinhos, a maior parte do tempo. Não me pergunte se eles conseguiram algum banquinho pra sentar ou se ficaram o tempo todo de pé. Não faço a menor idéia. Mas lembro perfeitamente da água que o André me oferecia de tempos em tempos, e do iogurte que a Paula me dava de vez em quando pra eu ir dando bicadas. Não tinha comido nada o dia todo desde o almoço. Aquele iogurte me salvou! Essas doulas… pensam em tudo!!! Deus abençoe as doulas!!

– Círculo de fogo! Círculo de fogo! -me lembro de ter gritado.

E aí sim eu entendi o que era a dor do parto. Porque até então, as contrações eram um misto de cólica menstrual e cólica intestinais. Só que mais fortes, claro. Segurei nas mãos dos dois, e gritei a plenos pulmões, a cada contração! Devo ter quebrado alguns dedos da Paula, certamente! (Desculpa, anja!) A partir daí, eu consegui ver na porta do banheiro vários Crocs, de diversas cores. Contei 6. Subi o olhar e eram mulheres de verde. Como a que vinha ouvir o bebê. Todas na porta, me observando. Enquanto eu tentava entender quem eram elas, mais uma contração. Mais uns dedos quebrados da Paula. De repente o André diz “olha como ele é cabeludo!” E a Paula diz “passa a mão! Dá pra vc sentir!” E eu pensei “como assim? O bebê está saindo? Eles estão vendo?” Acho que demorou pra cair a ficha de que o ‘Grand Finale’ estava chegando.

Eu não estava conseguindo uma posição confortável para parir, ali, na banheira. Estava com medo de machucá-lo e não agüentava ficar sentada ou de joelhos. Foi então que uma das mulheres de verde e Crocs sugeriu que eu fosse para a banqueta. Que idéia maravilhosa! Que confortável! Paula foi para as câmeras! André sentou na minha frente para poder receber o Oliver. Fiquei sem dedos para quebrar. Estendi as mãos para as mulheres de Crocs e elas entenderam. Uma de cada lado, me deram as suas mãos. Não tenho noção do tempo, mas pra mim foi questão de minutos e a cabecinha dele terminou de sair. Alguns minutos de suspense até a proxima contração, e… o André, como um goleiro, agarrou a criança, que resolveu sair como um quiabo!

Abracei meu filho. Fiquei olhando pra ele, num momento ainda meio surreal pra mim. Alguém sugeriu de tocar “Reconhecimento”. Paula deu o play. Cantei pra ele, olhando seu pezinho… “Que pezão! Tu vai ser corredor! Com um pé desse tamanho, só pode!” André cortou o cordão. Que momento mágico!

E assim nasceu meu Oliver! Aos 14 minutos do dia 26 de agosto de 2015, com 52 centímetros e 3,980 kg.

Se me perguntassem o que eu faria de diferente, a resposta seria NADA.

Obrigada, meu Deus, por tamanha bênção e por um parto tão tranqüilo.

Obrigada Paula! Obrigada André, meu amor! Obrigada, Cunhada! Obrigada equipe médica de plantão!

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Reconhecimento
Isadora Canto

Bem vindo meu novo ser
cercado de proteção
de tanto amor tanta paz
Dentro do meu coração.

É como se eu tivesse
esperado toda vida pra te embalar
É como se eu tivesse
esperado toda vida pra te embalar

GLOSSÁRIO

  • Pródromos – são o início do trabalho de parto. Sua característica é a presença de contrações irregulares do útero. Um desconfortozinho que vai e vem, às vezes pára, depois vem mais forte, depois pára de novo por um tempo, etc. Os pródromos podem durar bastante tempo, até dias. Fonte
  • Doula – A doula é a versão moderna da “comadre”: a amiga com experiência, que prepara e ajuda a mulher a passar pelo trabalho de parto. A doula não é uma parteira, ela trabalha junto com a parteira – ou médico. Enquanto a parteira – ou médico – tem seu lugar diante da mulher, entre suas pernas, e é encarregada de receber a criança que chega ao mundo, a doula se posiciona atrás da mulher, e lhe dá apoio físico e emocional. Fonte
  • Círculo de fogo – é quando a cabeça do bebê começa a sair, a “coroação”. Neste momento, a sensação é de ardor, por isso este nome.

Serviço de Utilidade Pública: Ishtar – Espaço para Gestantes – Grupo de apoio à gestante e ao parto ativo – http://ishtar-rio.blogspot.com.br/

Comments: 2

  1. Bruno Alarcon says:

    Nossa! Que coisa mais rica do universo, olhando o vídeo parece ser fácil ter um bebê (sqn rs). Linda história e emocionante. Parabéns a mamãe.

  2. Thamyres Ederli says:

    Gente que lindo, chorando horrores!!!!

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