Eu nunca quis ser mãe – anônima

Eu não sei exatamente como começar o meu relato. Peço por favor, que meu nome e o de minha filha não sejam revelados até porque não é uma história da qual eu me orgulho e nem me sinto confortável de falar. É a primeira vez que falo sobre o assunto. Conheci o seu blog através do texto que falava de parto humanizado e resolvi contar a minha história.

Eu não te conheço e prefiro nem conhecer pois tenho muita vergonha de tudo isso, me perdoe o português provavelmente errado mas, eu não seu usar muito bem os programas de computador. Não quero nenhum tipo de reconforto ou ombro amigo, para mim esse espaço de fala é mais importante do que o seu possível juízo de valor favorável a mim ou não. Sou casada, evangélica e obviamente o que vou falar aqui é o oposto que teoricamente eu deveria achar sobre o assunto.

Eu quis falar disso depois dessa lei, a PL5069 da qual eu me posiciono totalmente contra. Ver que esse projeto foi aprovado foi como um soco no estômago para mim. Eu sou mulher e me sinto muito lesada em relação a isso. Eu não me alinho com correntes feministas até porque pertenço a uma igreja que não apoiaria isso.

Vou contar um pouco da minha história antes de ser mãe para contextualizar um pouco. Fui adotada por um casal idoso, minha mãe tinha 60 anos quando me adotou e meu pai 75, fui uma filha querida e, sobretudo muito desejada. Porém, nunca fui muito bem instruída sobre métodos contraceptivos e nem mesmo a camisinha, algo tão básico.

Minha mãe foi uma mulher muito sofrida, casou-se com meu pai de forma arranjada aos 38 anos e só o conheceu no momento do casamento. Minha mãe não teve filhos legítimos, já casou sem menstruar por conta de um problema que teve quando mais nova quando morava no Nordeste. Foi escolhida para ser a mulher de um homem viúvo e com 2 filhos já que só “serviria” para isso naquela idade.

Minha mãe sempre quis ser mãe, eu não. Eu fui criada com muito amor mas, nenhuma conversa pois minha mãe não sabia como me instruir e preferia o silencio a reproduzir a educação obsoleta que tinha recebido de seus pais que por um acaso eram ex escravos. Aprendi tudo com amigos, revistinhas e etc…

Eu era jovem e experimentava o doce gosto da liberdade e do dinheiro próprio e fiquei noiva de um homem mais velho que eu. Eu peguei ele na cama com outra um dia antes do nosso casamento! Fiquei sem chão, me sentindo uma idiota de me guardar para alguém que me traía daquela maneira. Resolvi que se ele podia, eu também podia. Quis sair e transar com o primeiro que aparecesse, e assim o fiz.

É uma pena que escolhi mal, essa pessoa desconhecida veio a se tornar o pai da minha filha. Eu descobri a minha gravidez com 5 meses, eu fazia exames de sangue e urina e todos sem exceção deram negativo, fiz um ultrassom com o dinheiro de uma amiga e tive esse choque. Entrei em desespero!

Novamente minha amiga se propôs a pagar um aborto, se assim eu quisesse. Fui para casa pensar, procurei o telefone daquela pessoa com que transei naquele dia de raiva, me encontrei com ele, contei tudo e pedi dinheiro para o procedimento. Ele disse que queria a criança, ELE NEM ME CONHECIA E QUERIA A CRIANÇA!!!

Pensei comigo, não posso contar com ele. Voltei para a casa de minha amiga e aceitei a ajuda dela! Fui me consultar numa clínica chic da qual eu jamais imaginei que poderia ser uma clínica de abortos. Minha amiga disse: fica tranquila, eu conheço o médico! Você passa uns dias na minha casa.

Foi como receber um soco no estômago quando ouvi a opinião do médico ao ver a ultrassom que inclusive, ele refez durante a consulta. “Eu não aconselho o aborto nesse caso, o feto é muito grande e você não vai sobreviver”. Ele me aconselhou a doar a criança se assim eu desejasse e ficou perguntando se aquele batimento de coração não me comovia.

Eu não me sentia comovida, cada batimento para mim era uma tortura. Acreditem ninguém quer um aborto porque esta tudo bem, ninguém acha bonito isso, ninguém sai sem cicatrizes psicológicas graves após um procedimento desses! Parem de julgar as mulheres que abortam como se elas fossem pessoas horríveis!

Eu falo por mim, eu era uma mulher desesperada e pobre e que nunca almejou pela maternidade. Eu fui uma péssima mãe para minha filha! Eu não desejo isso para ninguém! Eu vejo que a indignação de muitos é seletiva, as pessoas se indignam com a mulher que aborta mas, aplaudem o policial quando ele mata um menor infrator! E são essas as pessoas pró-vida! (Eu não estou defendendo o menor infrator!)

As pessoas tendem a idealizar a maternidade, a achar que a mulher vem com esse instinto de fábrica. Não elas não vem! Eu vejo muita gente glamourizar tudo isso. Eu não queria abdicar dos meus sonhos, nem perder noites de sono, não queria me prender a alguém indesejado. Pode parecer horrível mas, foi mais horrível para minha filha que foi sujeitada a isso.

Voltei a falar com o “pai”, falei que não podia abortar pois o feto era grande e eu iria morrer. Fui bem clara dizendo que queria entregar a criança para ele e sumir, seguir minha vida, ele aceitou. Fui contar para minha mãe, não me esqueço do olhar de tristeza dela quando eu falei que não queria, ela achou que a culpa era dela mas, não me julgou.

A família do “pai” me acolheu em sua casa, romantizavam a minha relação com um homem que não era nada meu. Diziam coisas como; “melhor casar antes da barriga aparecer”, “vocês são um casal lindo”…não, nós não éramos um casal, muito menos um casal lindo. Suportei poucas e boas naquela casa.

Ouvi de tudo, e a paternidade era sempre questionada, eu era maltratada diariamente e só tinha a empatia de certas pessoas. Comecei a me afundar na depressão, bebia escondido e nunca deixei de fumar, para variar tomava remédios para dormir (com receita do médico) mas, eu não queria viver outro dia, eu odiava a minha barriga, eu odiava aquele homem e eu odiava a família dele.

Minha filha nasceu, sadia apesar de tudo e de parto normal! Dei à luz num hospital bem caro que eu jamais poderia ter pago, estava cercada de pessoas que não eram queridas enquanto meus pais estavam em casa pois a sua entrada no hospital havia sido negada. Eles eram pretos demais e pobres demais para visitar alguém ali.

Me neguei a ver a criança, não a peguei no colo, não amamentei, lembro da enfermeira colocar minha filha no berço e dizer: “ela precisa ser amamentada pelo menos uma vez, para receber os anticorpos”. Eu não conseguia encostar naquela criança e ela gritava! Existia uma mulher que dividia o quarto comigo, tinha dado à luz horas antes, seu bebê tinha nascido morto.

Nunca me esqueci do rosto dela, o leite escorria e se misturava junto com as lágrimas, eu não entendia a dor dela, eu desejei ser ela e não ter uma criança chorando no meu ouvido. Eu sei que é horrível mas, eu estaria mentindo se falasse que não foi bem assim. Eu olhei para ela e perguntei se ela queria amamentar meu bebê.

Ela levantou, pegou minha filha nos braços e olhou para ela de um jeito que eu nunca fui capaz de olhar. Nos tornamos amigas e foi ela que se comprometei a amamentar minha filha dali em diante. Expliquei a minha história e não vi em nenhum momento nenhuma sombra de julgamento.

Eu passei o meu resguardo na casa da família da minha filha, ouvia diariamente o quão ruim eu era por não querê-la. Minha depressão se agravava, eu já não conseguia olhar para aquela criança, eu não escolhi nem sequer o nome. Resolvi ficar com ela por medo de me arrepender no futuro só que, ficar com ela significava, ficar com o pai dela.

Entrei num relacionamento abusivo, me vi tendo que sustentar a casa, pois o meu companheiro usava drogas pesadas. Para a família lógico, ele era um santo. Ele sempre me ameaçava, dizendo que ia fugir com minha filha, eu tinha medo. Eu tinha largado tudo por ela, não porquê eu quis, mas de qualquer forma, eu não queria mais deixa-la, principalmente com ele!

Eu comecei a beber, passava o dia bêbada. Minha filha já tinha uns 5 anos e presenciava brigas horrorosas quase que diariamente. Eu nunca fui a nenhuma festa do dia das mães, eu olhava para ela e sempre procurava um defeito, eu passei a negligenciar cada vez mais ela, passava dias sem vê-la.

Quando meu sogro percebeu que eu estava tendo problemas com bebidas e que meu companheiro se drogava, ele não pensou duas vezes, nos colocou numa casa de repouso. Foi 1 ano sem ver minha filha, comecei a me sentir culpada pois quando eu estava bêbada, eu falava muita coisa ruim sobre ela.

Quando voltei para casa, me vi novamente presa naquela vida que eu nunca quis para mim, aquelas brigas constantes, meu companheiro gastando o meu dinheiro e o dinheiro dele com coisas que não eram para o lar e muito menos para minha filha. Eu mal saia do quarto e minha filha agora entendia em parte o que estava acontecendo e falava coisas para mim que me derrubavam.

Ela tinha 6 anos quando falou pela primeira vez umas verdades na minha cara, a frase foi a seguinte: “Por que você não sai daqui e deixa ele?”. Eu respondi: “Porque senão eu vou ter que deixar você” e ela retrucou: “tudo bem, eu sei que você não gosta de mim!”. Aquilo foi bem pesado para mim, principalmente porque era verdade.

Ela sabia, sabia de tudo e a quem eu estava enganando, eu nem falava com ela, fazia tudo de forma mecânica. A partir daí, toda briga que eu tinha com o pai dela era a mesma coisa, quando eu estava sozinha ela vinha até mim e dizia: “você precisa ir embora, ele é ruim para você”, “eu vou ficar bem e você pode ter um coelho”.

No aniversário de 7 anos dela, minha filha me surpreendeu dizendo o que queria de aniversário: “eu quero que vocês se separem para que eu possa morar com meu avô”. Minha filha cresceu e se afastou cada vez mais de mim, éramos estranhas, mal nos falávamos. Tive forças para me divorciar, para variar minha filha não tinha pensão por culpa minha que não queria me expor a um júri.

Hoje eu me arrependo mas, eu tinha medo de passar vergonha, ter meu passado jogado na minha cara e usado contra mim. Eu nunca apoiei minha filha em nada, nada do que ela se tornou foi contribuição minha, graças a Deus! Minha filha hoje é ótima pessoa e cuida de mim de um jeito que eu sei que nunca mereci.

Ela sofreu muito por minha causa, desde coisas pelas quais eu fazia ela passar, quanto pelas coisas que a família do meu ex companheiro fez ela passar, todas as humilhações e eu nunca fiz nada para ajudá-la. Ela saiu de casa com 17 anos, se emancipou na justiça e foi morar sozinha.

Culpa minha, não queria deixar ela fazer faculdade por conta do meu moralismo, sempre ataquei a sexualidade dela, sempre ataquei a minha filha, nunca a aceitei de verdade, ali não morava o amor e ela fazia questão de falar isso para mim. Minha filha hoje é professora de história, pagou a própria faculdade, fiquei 4 anos sem vê-la.

Eu tenho muito orgulho dela, principalmente por ela não ter sucumbido a minha falta de amor. Hoje eu a amo mas, esse amor foi construído à duras penas e muitas vezes as custas da minha sanidade. Ela é uma pessoa inteira coisa que eu nunca fui. Eu que eu posso dizer hoje sobre a minha relação com ela se resume a palavra GRATIDÃO.

Ninguém precisa ser mãe! Criar um ser é uma tarefa difícil, que só deve ser dada para pessoas que querem muito isso. Hoje eu amo minha filha mas, conviver com os meus monstros interiores ainda me tira o sono e eu me pego várias vezes pedindo desculpa para ela. Eu sou grata por ela me entender e não me julgar.

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