Mãe – por Bruno Alarcon

Ana Maria Santos Teixeira, 61 anos, Maranhense, chegou ao Rio de Janeiro muito nova, ainda na sua adolescência, em busca de um emprego que lhe desse mais estabilidade. Deixou minha irmã mais velha, Bel (hoje, com 40 anos), sob cuidados de minha avó, mas não demorou muito e minha irmã também veio para a cidade maravilhosa.

Minha Mãe, sem alfabetização, foi trabalhar em casa de família como doméstica e acabava morando muita das vezes nesses casas, mas quando foi conhecendo mais a cidade e seus habitantes, começou dividir domicílio com outras amigas que fizera durante esse tempo em Copacabana.

Sempre preocupada com a educação de Bel, era muito rígida quanto aos estudos. Dona Delia, patroa de minha Mãe, tinha muito cuidado com minha irmã enquanto ela trabalhava. Apresentava os mais diversos livros e ensinava minha irmã a tomar gosto pela leitura e ainda ajudava a disciplinar Bel na escola junto com minha Mãe.

Anos depois, minha Mãe conheceu meu pai. Posso dizer que foi a típica historia do gringo que conhece a mulata em Copacabana e que se apaixonam. Meu pai, Chileno que tinha quatro filhos no Chile, ficou com a minha Mãe há um tempo e decidiram morar juntos. E nesse tempo há muitas histórias que envolveram meus irmãos chilenos, Bel e minha tia que se mudou para o Rio também e outros amigos de minha Mãe, incluindo a nossa querida e eterna Amélia (falecida). Nessa época nasceu Camila (Hoje com 25 anos) a primeira filha brasileira do meu pai, que o ajudou no processo de nacionalização. Minha Mãe era muito feliz nesse tempo.

Eu nasci dois anos depois (tenho 22 anos hoje). Pelos relatos da Bel, eu era o filho mais esperado da minha Mãe, que sonhava em ter um filho homem. E a mesma afirma que foi um período muito difícil, quando meu pai nos deixou por um grande período e vivemos muitas dificuldades. Minha Mãe tinha três filhos para sustentar, não trabalhava para cuidar de nós e dependia do meu pai que havia simplesmente sumido. Houve, graças a Deus, a ajuda de Amélia e de outros amigos.

Depois que meu pai assumiu que tinha outra família aqui no Brasil, minha Mãe resolve então voltar a trabalhar. Bel larga os estudos para cuidar de nós enquanto minha Mãe trabalhava. Mudamos-nos para o nosso bairro quando eu tinha quatro anos de idade, e tenho lembranças muito fortes daquela época: minha Mãe sempre acordava de manhã bem cedo para o trabalho, junto com minha irmã mais velha que também trabalhava muito cedo, e dali por diante as duas arcavam com toda a despesa da nossa casa e cuidavam de nossa educação.

Minha Mãe trabalhou em hospitais por um tempo e fazia plantões noturnos e foi ali que ela descobriu que gostava de cuidar de idosos que, futuramente, veio a ser a profissão atual: acompanhante de idosos.

Minha Mãe sempre preocupada com a educação dos filhos dava o que agente queria, é claro, com fruto de muito trabalho. Foram momentos em que nós estudávamos em boas escolas, tínhamos um conforto, lazer, e nas datas comemorativas, minha Mãe e minha irmã faziam questão de não passar em branco. Foi uma infância gloriosa, graças a minha Mãe e minha irmã mais velha que teve seu reconhecimento como segunda Mãe em nossas vidas, uma vez que sempre se preocupou conosco e esteve em nossas reuniões de pais quando minha Mãe não podia estar. Não posso esquecer de Amélia, que se tornou madrinha da Camila, mais ainda, uma fada madrinha que também contribuía com muitas coisas.

A figura paterna, dali por diante, foi cada vez mais se distanciando. Meu pai fazia visitas, nos íamos na casa dele, mas éramos sempre visitas e não família. Muitas histórias boas aconteceram então nesse tempo. O álbum de família retrata e ilustra bem isso.

Hoje, 09 de agosto de 2015, dia dos pais. Olho pra trás e um turbilhão de coisas passa pela minha cabeça, em pensar em tudo que minha Mãe fez por seus filhos, com toda ajuda de minha irmã e pouca ajuda de meu pai, não sou capaz de pensar o quanto tenho gratidão. Todas as vezes que penso em desitir de algo que quero muito eu penso em minha Mãe, que é um exemplo de trabalho e perseverança, e mais, um grande exemplo de amor. Com toda sua coragem, conheceu o que é o “Jeitinho brasileiro” na marra, mas sem dúvida o que deu tanta coragem foi o amor pelos filhos, a preocupação de sempre dar o que é melhor. Minha Mãe é uma pessoa extremante boa, é capaz de perdoar qualquer atrocidade e ajudar o próximo de uma forma muito natural e genuína, que quase sem querer passa isso para os filhos, para a neta, e para os que ainda virão. É simplesmente, muito amor envolvido. Toda a educação que minha Mãe me deu é reflexo da pessoa que me tornei, que procura lutar pelos ideias da forma mais honesta possível, e é só assim que a gente consegue viver bem. Minha Mãe talvez seja só mais uma que veio do interior para tentar a vida, ou só mais uma que foi abandonada pelo pai de seus filhos, mas posso dizer que também e mais uma que se tornou a figura mais presente e mais importante quando se fala em família. Mãe é a parte fundamental na nossa educação, sem ela eu nada seria. Hoje aprendemos muito um com o outro, todas a dificuldades se tornam maleáveis quando tenho minha Mãe para conversar e me dar conselhos. Acredito que a história de minha Mãe e o amor pelos seus filhos seja exemplo para muitas famílias.

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Maria, Maria
Milton Nascimento

Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri
Quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

Comments: 2

  1. Michele says:

    Linda história.
    Um exemplo para muitas…que Deus abençoe sempre essa guerreira e parabéns pelo filho maravilhoso.

    • Bruno Alarcon says:

      Obrigado Michele. Como filho só tenho a dizer que sou muito feliz pela mãe que tenho.

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